Hermann Hesse (1877-1962)
Setembro
(Quatro Últimas Canções, II)
para a Daniela G.
Chora o jardim.
A chuva cai sobre o último botão.
Estremece o Verão,
Caminhando em silêncio para o fim.
Goteja ouro folha a folha
Da acácia de nobre porte.
Sorri o Verão, e exausto olha
Aquele esplendor de morte.
Pára junto ao roseiral,
Sonha com o fim aprazado.
Corre as cortinas no umbral
Do seu fundo olhar cansado.
Hora de son(h)o
(Quatro Últimas Canções, IV)
para o Sr. Quirino
E o dia caiu, cansou,
E a nossa saudade ardente
Recebe as estrelas da noite
Como criança dormente.
Ficam os trabalhos esquecidos,
Esquece a fronte o pensamento,
Todos os nossos sentidos
Se afundam num sonho lento.
E a nossa alma despida
Solta as asas contra o vento,
Vive mil vezes a vida
Pela mágica noite adentro.
Klingsohr fala à «Sombra»
(De O Último Verão de Klingsohr)
para Piedade B.
De noite o carrocel arrefeceu,
Esvaiu-se a música, a dança morreu,
Morreu do vinho a mesa carmesim.
E nós a olhar, cansados de beber,
E o vento quente p'lo portão a entrar,
E a morte no meio do jardim.
E saímos os dois, apartados,
Buscando abrigo para a noite, calados,
E a alegria chegava ao fim.
E desde então oiço, ou adivinho,
Esse vento, e em cada portão, cada caminho,
A morte ainda espera por mim.
7.2.07
Do Livro das Oferendas...
Às
23:34
Por
J.B.