Emily Dickinson (1830-1886)
para a Elisa
Glória, doce bem, mais doce
Para quem nunca teve glória.
Para saber o que é um néctar
Muita dor é necessária.
Nem um, no exército púrpura
Dos que hoje levaram a bandeira,
Tem clara definição
Da vitória verdadeira
Como o vencido, a morrer,
Em cujo interdito ouvido
Os sons do triunfo, ao longe,
Se esvaem, em claro gemido.
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Flores – se houver alguém que possa
O êxtase definir,
Meio devaneio, meio espanto,
Com que a flor o homem humilha,
Se alguém encontrar a fonte
De onde as contra-ondas descem,
Dou-lhe as margaridas todas
Que na encosta florescem.
Inflamais o rosto apenas
Por um simples seio como o meu.
Borboletas de San Domingo,
Cruzando o purpúreo céu,
Têm um sistema de estética
Muito superior ao meu.
para a Lúcia
Esta é a minha carta ao mundo
Que a mim nunca me escreveu –
Simples novas que a natureza,
Terna e majestosa, contou.
Sua mensagem vai cair
Em mãos que não verei daqui;
Por amor dela, irmãos, fazei
Um juízo amável de mim.
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Há uma incidência de luz
Nas tardes invernais,
Que oprime, como a pesada
Música de catedrais.
Traz-nos a ferida dos céus;
Não vemos a cicatriz;
Vemos a diferença, dentro
Do que a palavra nos diz.
Ninguém lhe ensinará nada,
Traz selo: desesperança –
Imperial aflição
Que do ar nos alcança.
Se chega, a paisagem escuta,
Calam-se as sombras; se parte,
É assim como a distância
No olhar da Morte.
24.1.07
Do livro das oferendas...
Às
22:53
Por
J.B.